Capítulo 5 Técnicas de Amostragem
Depois de calcular quantas pessoas a pesquisa precisa, falta responder à outra metade da pergunta: como escolher essas pessoas. É disso que trata a técnica de amostragem, e o objetivo dela é garantir que a amostra represente bem a população, evitando viés.
5.1 O que é viés de amostragem
O viés aparece quando certos grupos têm mais chance de ser selecionados do que outros, o que distorce os resultados.
Imagine que a UFTM tenha 60% de mulheres e 40% de homens. Se a sua amostra terminar com 80% de homens e 20% de mulheres, ela não representa a população — e qualquer conclusão que você tirar dela vai carregar essa distorção. Toda a discussão a seguir é sobre técnicas que minimizam esse risco.
As técnicas se dividem em dois grupos. Nas probabilísticas, há sorteio, e todos têm uma chance conhecida e diferente de zero de ser selecionados. Nas não probabilísticas, não há sorteio: a seleção se dá por conveniência, julgamento ou cotas.
5.2 Amostragem aleatória simples
Todos têm a mesma chance de ser escolhidos, como num sorteio de loteria.
Para fazer, você obtém uma lista completa da população, numera cada pessoa de 1 até N, sorteia aleatoriamente a quantidade calculada e monta a amostra com quem foi sorteado. O sorteio pode ser feito no R com a função sample(), no Excel com =ALEATÓRIOENTRE(1;N), em sites como o Random.org ou em qualquer aplicativo de sorteio.
Um exemplo na UFTM: para avaliar a saúde mental dos estudantes, você solicitaria à secretaria a lista de todos os alunos matriculados, sortearia 364 deles com uma ferramenta digital e convidaria os sorteados por e-mail institucional.
A vantagem é ser simples de entender e aplicar, dar chance igual a todo mundo, minimizar o viés de seleção e servir de base para as análises inferenciais. A desvantagem é depender de uma lista completa e atualizada, o que nem sempre existe, e ficar difícil em populações muito grandes. Há ainda o risco de grupos pequenos ficarem sub-representados por puro acaso.
Para evitar viés: garanta que a lista esteja completa e atualizada, use geradores aleatórios confiáveis em vez de escolher “de cabeça”, e nunca substitua um sorteado por outra pessoa mais acessível.
5.3 Amostragem estratificada
Aqui dividimos a população em grupos homogêneos, chamados estratos, e sorteamos dentro de cada grupo proporcionalmente. Use quando a população tem subgrupos importantes que precisam estar representados.
Vejamos como ficaria na UFTM, com uma amostra de 364 estudantes de graduação.
Nos exemplos de amostragem a seguir trabalhamos apenas com a graduação, cerca de 6.750 alunos. O N de 6.900 usado no cálculo amostral incluía também a pós-graduação e os cursos técnicos. Como os dois números são próximos, a amostra de 364 continua adequada — mas, na sua pesquisa, defina uma população só e use a mesma em todas as etapas.
O primeiro passo é definir os estratos, que aqui serão os cursos:
| Curso | Estimativa de alunos* | % | Amostra por curso |
|---|---|---|---|
| Medicina | 660 | 10% | 36 |
| Enfermagem | 400 | 6% | 22 |
| Fisioterapia | 330 | 5% | 18 |
| Terapia Ocupacional | 200 | 3% | 11 |
| Nutrição | 330 | 5% | 18 |
| Educação Física | 530 | 8% | 29 |
| Psicologia | 400 | 6% | 22 |
| Serviço Social | 330 | 5% | 18 |
| Engenharia Ambiental | 330 | 5% | 18 |
| Engenharia de Produção | 330 | 5% | 18 |
| Engenharia de Alimentos | 260 | 4% | 15 |
| Engenharia Elétrica | 330 | 5% | 18 |
| Engenharia Mecânica | 330 | 5% | 18 |
| Letras | 260 | 4% | 15 |
| História | 200 | 3% | 11 |
| Geografia | 200 | 3% | 11 |
| Ciências Biológicas | 400 | 6% | 22 |
| Química | 200 | 3% | 11 |
| Matemática | 200 | 3% | 11 |
| Biomedicina | 330 | 5% | 18 |
| Total | ~6.750 | 100% | 364 |
*Valores aproximados, para efeito didático.
O segundo passo é sortear aleatoriamente, dentro de cada curso, a quantidade calculada para aquele estrato.
Essa técnica dá maior representatividade, garante que os cursos menores entrem na amostra, permite comparações entre eles e reduz a variabilidade do conjunto. Em compensação, exige conhecer a composição da população por curso e ter acesso a listas separadas por estrato, além de dar mais trabalho que a aleatória simples.
Para evitar viés: os estratos precisam ser relevantes para a pesquisa e mutuamente exclusivos, isto é, cada aluno em um estrato só. E use alocação proporcional, para que a amostra reflita a distribuição real da população.
Os cursos não são a única forma de estratificar na UFTM: dá para usar o período (calouros, intermediários, formandos), o campus (Uberaba e Iturama), o turno (matutino, vespertino, noturno, integral) ou a grande área (Saúde, Exatas, Humanas).
5.4 Amostragem sistemática
A ideia é escolher um ponto de partida aleatório e depois selecionar a cada k elementos da lista.
Com 6.750 alunos e uma amostra de 364, começamos calculando o intervalo:
k = População / Amostra
k = 6.750 / 364 = 18,5 → arredonde PARA BAIXO: k = 18
Atenção ao arredondamento: aqui o k deve ser arredondado para baixo. Se usássemos k = 19, percorrendo a lista de 19 em 19 sairiam apenas 6.750 ÷ 19 = 355 pessoas, menos do que os 364 necessários. Com k = 18 saem 375, que cobre a amostra com folga.
Em seguida sorteamos o primeiro elemento, um número entre 1 e 18. Digamos que saiu o 7. A partir dele, selecionamos de 18 em 18: 7, 25, 43, 61, 79, 97, 115, 133, e assim por diante até percorrer a lista inteira. No R, a função seq() monta essa sequência; no Excel, uma fórmula de sequência aritmética resolve; e no papel, basta uma calculadora e a lista numerada.
Um exemplo fora da universidade: você está numa UBS pesquisando satisfação na fila de vacinação. Decide entrevistar uma a cada dez pessoas, sorteia o início e cai na terceira; daí em diante entrevista a 13ª, a 23ª, a 33ª, e por aí vai.
É uma técnica muito fácil de aplicar em campo, distribui a amostra uniformemente ao longo da lista e dispensa múltiplos sorteios. O problema aparece quando a lista tem algum padrão periódico, porque aí o salto fixo pode cair sempre no mesmo tipo de pessoa. E, por isso mesmo, ela é um pouco menos aleatória que a amostragem simples.
Para evitar viés: certifique-se de que a lista não tem uma ordem sistemática e, se tiver (por curso, por exemplo), embaralhe antes. E garanta que o primeiro elemento seja sorteado de verdade.
5.5 Amostragem por conglomerados
Aqui dividimos a população em grupos, os conglomerados, e sorteamos grupos inteiros.
Suponha que você queira pesquisar hábitos de estudo na UFTM. Uma opção é tomar as turmas como conglomerados: liste todas as turmas por curso e período, sorteie algumas e pesquise todos os alunos delas. Outra é tomar os cursos: liste os 20, sorteie 5 e pesquise todos os alunos (ou uma amostra) desses cursos. Uma terceira é tomar os campi: sorteie entre Uberaba e Iturama e pesquise uma amostra dos alunos do campus sorteado.
A vantagem fica evidente em escala nacional. Numa pesquisa sobre educação no Brasil é impossível listar todos os estudantes do país; então sorteamos 50 cidades, dentro delas sorteamos 5 escolas cada, e pesquisamos os alunos dessas escolas.
É a técnica mais prática para populações grandes e dispersas, economiza tempo e custo porque concentra a coleta, e dispensa a lista completa de indivíduos. O preço é ser menos precisa que as outras: conglomerados podem ser muito diferentes entre si, e isso aumenta o erro amostral.
Para evitar viés: os conglomerados devem ser internamente diversos e parecidos entre si — o oposto do que se espera dos estratos. E sorteie um número suficiente deles.
Essa é justamente a diferença que costuma confundir:
| Aspecto | Estratificada | Conglomerados |
|---|---|---|
| Divisão | Grupos homogêneos | Grupos heterogêneos |
| Seleção | Amostra de cada grupo | Alguns grupos inteiros |
| Objetivo | Representar subgrupos | Facilitar a coleta |
| Na UFTM | Sortear alunos de cada curso | Sortear turmas inteiras |
5.6 Amostragem por conveniência
Aqui selecionamos quem está mais acessível ao pesquisador. É uma técnica não probabilística, sem sorteio, com alto risco de viés — e, ao mesmo tempo, rápida, prática e barata. É a mais usada nos trabalhos de graduação, e por isso merece atenção redobrada.
Os exemplos mais comuns são o formulário online, em que o pesquisador compartilha um link e responde quem quiser; a abordagem em locais específicos, como entrevistar alunos na biblioteca, no restaurante universitário ou na entrada do campus; e a divulgação em redes sociais, por post no Instagram, grupo de WhatsApp do curso ou e-mail para colegas conhecidos.
Os formulários online, em especial, concentram quatro tipos de viés:
| Tipo de viés | O que é | Exemplo |
|---|---|---|
| De acesso | Só quem tem internet responde | Exclui quem não tem smartphone ou dados móveis |
| De autosseleção | Só os interessados respondem | Quem gosta do tema participa mais |
| De distribuição | Enviado só a certos grupos | Só o grupo de WhatsApp do seu curso |
| De plataforma | Cada rede tem seu perfil | O público do Instagram não é o do e-mail institucional |
O viés de distribuição é o mais fácil de cometer: se o formulário circular só no grupo da Medicina, a amostra terá um curso onde a população tem vinte.
A conveniência é aceitável em estudos exploratórios de fase inicial, em pré-testes de questionário, em pesquisas qualitativas, quando os recursos são muito limitados e em TCCs com prazo curto. Não é aceitável quando a pesquisa precisa generalizar para a população, em estudos quantitativos rigorosos, em dissertações e teses, e em publicações de alto impacto.
Se você precisa usá-la, dá para reduzir bastante o estrago. Diversifique os canais: não envie só em um grupo, mas também por e-mail institucional para todos os cursos, em redes sociais variadas, em murais físicos espalhados pelo campus, em avisos de sala de aula de cursos diferentes e na rádio universitária. Descreva as limitações honestamente no texto do trabalho. Compare a amostra com os dados populacionais e relate as diferenças: se 80% da amostra é de Exatas e a UFTM tem 40% de cursos dessa área, isso precisa aparecer. E, se possível, combine com outra técnica, somando o formulário online a uma coleta presencial estratificada.
Um exemplo de como relatar isso com honestidade em um artigo:
“Utilizou-se amostragem por conveniência através de formulário online (Google Forms), divulgado por e-mail institucional, redes sociais e grupos de WhatsApp. Obtivemos 412 respostas de estudantes da UFTM. Reconhecemos que esta técnica apresenta limitações quanto à representatividade, especialmente viés de autosseleção e acesso digital. A amostra apresentou maior proporção de estudantes da área da Saúde (65%) comparado à distribuição real dos cursos da UFTM (aproximadamente 40%), o que deve ser considerado na interpretação dos resultados.”
5.7 Combinando técnicas
Na vida real, os pesquisadores frequentemente combinam técnicas para melhorar a representatividade dentro do que é viável.
Dá para juntar estratificada com aleatória simples, dividindo os alunos por área e sorteando dentro de cada uma. Ou conglomerados com sistemática, sorteando 8 cursos e, dentro deles, selecionando a cada quinto aluno. Ou ainda estratificada com cotas, definindo quantas respostas se quer por curso e divulgando o formulário até preencher cada cota.
Veja um caso concreto: pesquisar o bem-estar dos estudantes, com recursos limitados e dois meses de prazo. Na primeira etapa, estratifique por área — Saúde 40%, Exatas 35%, Humanas 25% — e calcule a amostra proporcional. Na segunda, faça a coleta mista, visitando turmas sorteadas para obter 60% da amostra e complementando os 40% restantes com formulário online. Na terceira, monitore as proporções durante a coleta e reforce a divulgação nos grupos que ficarem sub-representados. O resultado é uma amostra mais representativa do que a puramente online e mais viável do que a puramente presencial.
5.8 Comparando as técnicas
| Técnica | Tipo | Complexidade | Representatividade | Custo | Quando usar |
|---|---|---|---|---|---|
| Aleatória simples | Probabilística | Baixa | Alta | Médio | Lista completa disponível |
| Estratificada | Probabilística | Média | Muito alta | Médio-alto | Subgrupos importantes |
| Sistemática | Probabilística | Baixa | Alta* | Baixo | Lista sem padrões |
| Conglomerados | Probabilística | Média | Média | Baixo | População dispersa |
| Conveniência | Não probabilística | Muito baixa | Baixa | Muito baixo | Estudos exploratórios |
*Desde que não haja padrão periódico na lista.
Para escolher, comece perguntando se você tem a lista completa da população. Se tem, veja se existem subgrupos importantes: havendo, use estratificada; não havendo, aleatória simples resolve. Se não tem a lista, pergunte se a população está dispersa geograficamente: se estiver, vá de conglomerados. Se não estiver e os recursos forem muito limitados, resta a conveniência, com todo o cuidado que ela exige — caso contrário, vale o esforço de conseguir a lista e usar a estratificada.
Antes de fechar a decisão, confira se você:
5.9 Um guia rápido contra o viés
Cinco fontes de viés aparecem com mais frequência, e cada uma tem um antídoto:
| Tipo de viés | O que é | Como evitar |
|---|---|---|
| Seleção | Alguns grupos têm mais chance | Usar sorteio verdadeiramente aleatório |
| Autosseleção | Só os motivados participam | Incentivar e facilitar a participação de todos |
| Não resposta | Quem não responde é diferente de quem responde | Fazer follow-up, oferecer incentivos |
| Acesso | Parte da população não é alcançável | Combinar canais, online e presencial |
| Temporal | Coletar só em um certo período | Distribuir a coleta em momentos diferentes |
E, ao final da coleta, verifique se você usou de fato um método de sorteio em vez de escolher pessoas conhecidas; se todos os subgrupos relevantes tinham chance de ser selecionados; se o cadastro estava atualizado; se você resistiu à tentação de substituir sorteados por quem estava mais à mão; se documentou quem recusou ou não respondeu; se comparou as características da amostra com as da população; e se relatou as limitações honestamente.
5.10 Para levar daqui
Documente tudo: como sorteou e com qual ferramenta, quantas pessoas foram convidadas, quantas aceitaram e quantas recusaram, e em que data a coleta aconteceu. Seja transparente sobre as limitações da técnica escolhida, sobre os vieses possíveis e sobre o motivo da escolha. Planeje para as perdas, acrescentando 20% a 30% ao tamanho calculado e tendo uma estratégia pronta para baixa adesão. E teste antes: um piloto com 10 a 20 pessoas revela problemas no questionário que você não veria de outro jeito.
Um exemplo de redação completa para a seção de método:
“Utilizou-se amostragem estratificada proporcional, com estratos definidos por curso de graduação. A partir do cadastro institucional de 6.750 estudantes da UFTM, distribuídos em 20 cursos, calculou-se amostra de 364 alunos (margem de erro de 5%, nível de confiança de 95%). A distribuição amostral por curso respeitou a proporção de cada curso na população. Dentro de cada estrato, realizou-se sorteio aleatório simples utilizando gerador de números aleatórios (Random.org). Foram convidados 486 estudantes para compensar possíveis perdas estimadas em 25% (364 ÷ 0,75). A taxa de resposta foi de 77% (n = 374), superando o mínimo necessário. A amostra final apresentou distribuição por área (Saúde 38%, Exatas 36%, Humanas 26%) compatível com a população da instituição.”
Em uma frase cada: a aleatória simples sorteia direto da lista completa; a estratificada divide em grupos e sorteia de cada um; a sistemática escolhe a cada k elementos; a de conglomerados sorteia grupos inteiros; e a de conveniência pega quem está acessível.
Sempre que possível, use técnicas probabilísticas: são elas que permitem generalizar os resultados e são mais aceitas cientificamente. E se você precisar recorrer à conveniência, seja honesto sobre as limitações.